Hélio Neri

Hélio Neri, nasceu em Santo André (SP), em 1973. É Poeta Cabeleireiro/Barbeiro. Publicou os livros “Anomalia” (Alpharrabio Edições, 2007), “Palavra Insubordinada” (Alpharrabio Edições, 2011), “Bandido” (Oitava Rima Editora, 2014), “Anestesia” (Editora Córrego, 2016). Participou das antologias “Poesia Contemporânea Brasil e México” (Cielo Aberto, 2012), “É que os Hussardos chegam hoje” (Editora Patuá, 2014), “5 Saraus: Cada um com sua poesia, cada um com sua fúria” (Imprensa Oficial, 2015). Organizou, junto com Jairo Costa, a antologia “Poemas para ler nas Ocupa” (Editora Estranhos Atratores, 2016). Integra o Coletivo Sarau na Quebrada desde 2011.

Contato: helioneripoesia@hotmail.com

 


Conheça alguns pemas do livro “Sessões diárias e outros poemas”:

 

Moradores

 

há mais ou menos

quatro anos

todos os dias

pego ônibus bem cedo

aqui nesta região

e geralmente (ou às vezes)

sempre com as mesmas pessoas

no trajeto até o ponto

faz muito frio

parecido com o coração

de alguns por aqui

e também por aqui não são muitos

os que dizem bom dia

mas tenho conhecido pessoas

à noite esta passagem

se torna lugar ermo

e passamos todos

a ser mais vulneráveis

 

***

 

Pedido

              para Tatiana Fernandes

 

por vezes me pede um poema

: assim do nada

de repente

 

caminhando pela calçada

de mãos dadas

observando descontraídos

as coisas

 

passeios que fizemos

lugares distantes

ou próximos

pisando na areia da praia

 

conversando bem de perto

uma conversa mais íntima

olho no olho

de corpos e lábios

 

eu lembro do dia

do cinema e (claro), tantos

outros momentos

aí outra vez me pede

 

– me pede

 

: porque sabe que somos

 

***

 

Ao menos

 

ao menos daqui

consigo ver estes muros

estas paredes

as divisões que representam

vejo ainda janelas (e são muitas)

prédios e uma sucessão deles

(e também são muitos)

mais ao lado o cemitério

(que, por si só e sua

aura, não é preciso dizer mais nada)

um pouco mais ao longe: nuvens

um sol querendo aparecer

à força, a fumaça ora fogo

que saem das chaminés do polo petroquímico

aqui embaixo uma quadra de futsal

do condomínio vizinho

tudo parece ser regido por

uma harmonia exímia

tudo em ordem, belo

sem qualquer rumor de ameaça

perigo, um horizonte esplendido

ao menos daqui:

é isso que consigo ver

desta janela da nossa área de serviço |

 

***

 

Terra devastada

 

estamos perdidos

prisioneiros desta terra

onde abutres espreitam

o tempo todo –

desejam estraçalhar

qualquer possibilidade de luz

empirismo

aniquilar nossos anseios

: entender que agora sonhar está

cada vez mais distante e os

discursos de hoje

e de sempre escondem

apenas

um cruel e abominável interesse

não há qualquer céu para mirar

vamos permanecer

de mãos dadas

lado a lado

atravessar por sobre esta

terra devastada

de vilanias e sangue

contemplar o pôr do sol

tentar sorrir, brincar

se aconchegar: um no

ombro do outro

viver sob a vigência de

nossa próprias crenças

enquanto há tempo

tentar ainda (ao máximo) a felicidade

sem esquecer o que nos espreita

 

***

 

Holter / 23052016

 

fixado em meu corpo

: mais precisamente

ao abdome e

bíceps

este aparelho sugere

que eu me contenha

e não me exalte

enquanto examina minha pressão

e meus batimentos cardíacos

no entanto como disfarçar

que tudo está bem

e não absorver toda essa

lastima, nestes dias de

trevas e horror?

seria o caso talvez de fechar

os olhos ouvidos e boca

se trancar no quarto

correr para o abrigo dos cobertores

apagar a luzes

se esconder

e quase nem respirar –

mas ainda como realizar isso: se

este aparelho (mesmo

se me finjo de morto) me faz

lembrar de 15 em 15 minutos

que eu continuo vivo

 

***


Título: Sessões diárias e outros poemas

Autor: Hélio Neri

Poemas, formato 14×21, 80 páginas

ISBN: 978-85-53073-07-8

Preço: R$ 38,00 (frete gratuito)




 

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