Izabela Orlandi

Izabela Orlandi nasceu em Vitória-ES em 1991. É formada em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Autora dos livros O que esperar de uma flor amarela? (Patuá, 2013), Vão dos bichos (Patuá, 2015) e O sal das suas pernas (Fractal, 2018). Publicou na 7faces – caderno-revista de poesia (Natal), na revista DiVersos Poesia e Tradução (Portugal), na revista Gente de Palavra (Porto Alegre), entre outras.

Contato: belaorlandi@gmail.com

 

 


Conheça alguns dos poemas do livro “O sal das suas pernas”:

 

I

 

existem só uma ou duas mulheres

que podem te destruir completamente

a violência do mar está presa em seus dedos

existe apenas uma mão na sua memória

eu aposto que ela é firme e que você a sente

nos seus ombros ao pagar a conta do bar

ou entre as suas pernas ao deitar

 

nossa história foi jogada na sarjeta

e nós a buscamos como fantasmas

e ratos que não têm mais uma migalha

 

existe o fracasso e sentimos seu gosto

na cama sem prazer por maior que seja

a tentativa de alguns desconhecidos

todos querem um pedaço da sua carne

à noite e você só quer que a porra

do copo não fique vazio

ou um conselho barato

de algum desconhecido

 

existem só uma ou duas mulheres

que podem te destruir completamente

seus dedos nunca cataram as migalhas

de uma história que quer ser bonita e guardada

 

existem só uma ou duas mulheres

que podem te destruir completamente

suas mãos são eternas e se você engole a destruição

é como esvaziar um copo em um único gole

é como lamber os dedos do mar

 

***

 

XXII

 

o esconderijo tem que ser mais profundo que o canal vaginal

porque a ferida é anacrônica e fere vermelho, fere transparente

fere você no fundo do buraco e envolve você

no centro da cidade comendo lábios

então o esconderijo tem que ser profundo

pra depois que você morrer ninguém roubar suas calcinhas

te escrever uma carta hipnótica com endereço exato

ou dizer em tom de segredo dessa ternura que te afoga

eu te disse ontem que o mais profundo é a superfície do mar

porque o que é longe tem arrepio na nossa pele

depois passei antisséptico nas mãos

e escrevi um bilhete de advertência:

 

a escada de incêndio não é segredo,

não diz nesse tom de segredo dessa

minha cara, não diz segredo nessa cena.

 

lidei com essas minhas lágrimas que não cabem em lugar nenhum

por isso o esconderijo tem que ser profundo

pra depois que você morrer ninguém te mandar as lágrimas do mundo

ajoelhar no olho do furacão e pedir comida chinesa porque você adorava

 

o esconderijo tem que ser profundo pra enquanto você naufraga

a ferida ser ferida, a ternura ser ternura na terra úmida

e você ter forças pra levar o cavalo nas costas como ele te leva

 

até o mar secar

 

e seca pra morte ser toda morte

no esconderijo tem que caber

só o seu nome dentro

 

***

 

XXIV

 

os cães fazem matilha na sua pele

um ninho

 

e só o que eu quero fazer é

te dizer que o meu silêncio

foi uma mentira

 

o corpo é um botão desgastado

as mãos não tapam os buracos

que sabem o que é extremo

 

e necessário: ter mais sede

 

à tarde criamos perguntas hipotéticas

com escolhas tão terríveis quanto o som

de Ravel no piano revelando o seu desejo

de ter metade desse talento para qualquer coisa

 

me inundam as águas

e os mamíferos com suas bocas

cansadas

 

e só o que eu quero fazer é ver

 

toda essa matéria-prima

virando resto de comida

resto de ninho

 

***

 

XXXI

 

1

 

cecília me comprou um algodão doce

e me ensinou que desaparecer é impossível

 

2

 

analista não parcela a nossa dívida

assinamos a tv a cabo

pedimos pizza pré-assada

esquecemos de 1999

quando só tínhamos o azul

da chuva e o cheiro dos seus dedos

na minha calcinha de algodão

 

3

 

acabaram os anos em que cecília

me ensinava a chorar

 

4

 

mês passado engolimos o sangue quente

vomitamos os ossos do cachorro

nas costas frias do mundo

rezamos deitados na ponte

dos suicidas

comungamos o corpo vivo

das putas e agradecemos

 

5

 

cantamos no coral dos surdos

 

 

6

 

cecília, deita aqui que já são cinco

da manhã e acabou o cigarro

 

7

 

é o tempo de queimar a face

do vermelho mais vivo, cecília,

para termos sangue esperma lágrimas

mar gelado circulando nas veias gastas

e acordarmos todos os dias

 

***

 

XLIX

 

notas de construção

 

 

1

 

deixar a casa cair

 

2

 

deixar a casa cair

e salvar os pés

 

3

 

deixar a casa cair

salvar os pés

e os navios

 

4

 

construção: a casa no chão

 

***

 

LV

 

tem uma velha cafeteria na esquina de uma casa

em uma cidade que comporta pouquíssimas pessoas

nenhuma delas pertence a mim

tem uma mulher com os dedos mais quentes

e tem o mar inundando tudo que o cerca

nada disso pertence a mim

tem uma cama e um cobertor azul

um cinzeiro já cheio de cigarros no meio da tarde

e tem a tarde com seu vento calmo

algumas pessoas conversando

tocando em amenidades e nada mais

tem um homem velho e sozinho no canto oposto

ao que eu me encontro e ele é como

um espelho um reflexo ou uma leve incoerência

nada disso pertence a mim

 


Título: O sal das suas pernas

Autora: Izabela Orlandi

Poemas, formato 14×21, 120 páginas

ISBN: 978-85-53073-02-3

Preço: R$ 38,00 (frete gratuito) – livro em pré-venda, envio após lançamento




 

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