Jorge de Barros

Jorge de Barros, autor de “O idílio de Maria Elefanta e Perna Seca”, é professor e escritor, com incursões pela crônica, conto, poesia, cordel, dramaturgia, roteiro de cinema e quadrinhos em projetos independentes. Formado em Letras e Ciências Sociais, mestre em Antropologia Social pela USP e pós-graduando em Roteiro de Ficção pelo Senac.  Já recebeu alguns prêmios por sua obra literária, com destaque para o programa Nascente USP – 2016 (menção honrosa), Feira do Livro de Ribeirão Preto (1º lugar – crônica) e Off Flip de Literatura (4º lugar – poesia). Publicou em diversas coletâneas de contos e poemas em livros, revistas e jornais literários. Lançou a HQ independente “Capanga!”, em 2016, com desenhos de Ton Albuquerque. Contato: liojorge@yahoo.com.br

 

 


Conheça dois contos do livro “O idílio de Maria Elefanta e Perna Seca”:

O Idílio de Maria Elefanta e Perna Seca

 

Para Macário Ohana Vangelis

 

Perna Seca era um mendigo célebre. Seu apelido vinha do defeito que o gabaritava para a vida de pedinte: uma perna inútil, a canhota, seca e magra, como perna de criança, que ele arrastava pendurada no corpo, como um adereço espalhafatoso ou um parasita. Causava horror e pena aquele molambo de perna de menino, lisa e franzina, naquele corpo velho de homem feito e barbudo. Mas também não deixava de ter lá uma graça. Era a única parte do corpo que ele mantinha limpa, toda a se mostrar no calçadão da cidade, fizesse calor ou frio. Era o seu ganha-pão, a pernica. Ele mal precisava usar as técnicas de lamúrias tão caras aos pedintes e necessárias à profissão de mendigo. Sua perna já dava conta do recado e ele se bastava com o “Deus lhe pague” e o “Deus lhe dê em dobro”. E assim seguia Perna Seca, garantindo o dinheiro do feijão e da cachaça e, quando sobrava algum, do amor barato das prostitutas mais caridosas, já que nem todas iam com aleijados.

Mas eis que, certo dia, no mesmo calçadão, surgiu uma concorrente à clientela de piedosos. Era uma senhora negra, roliça, com aparência mais jovem do que a idade que tinha. Entretanto carregava uma terrível elefantíase na perna destra. A perna da “Maria Elefanta”, apelido logo atribuído àquela Dona Maria, toda deformada de inchaços, era um aleijão bem mais feio do que o do “colega de mais abaixo” e, tão logo ela se instalara na rua, as esmolas passaram a vazar bem mais pro lado dela… aliás, perto da pernorra doente, a perninha do Perna Seca tinha ficado até simpática…

Mas não era a primeira vez que nosso amigo tinha que lidar com aquele tipo de situação! Estava acostumado com a disputa no livre mercado das esmolas, e já tinha expulsado mendigos e vagabundos muito mais escolados que aquela mulher. “É iniciante” pensou, “vai ser mole enxotá-la do meu ponto”. Mas o negócio seria duro e teria que ser sujo, tramava, observando a rival. E de tanto a observar, surpresa! Ela também encontrou seus olhos num intervalo da calçada e sorriu. E não era um sorriso desafiador, nem amistoso. Era sorriso de fêmea. E ele, claro, correspondeu.

Apesar da vida ter criado uma forte casca no coração desse homem, ele não tinha se tornado imune à lambida da vaidade, e foram tão raros os momentos em que lhe dirigiam atenção de graça… Lembrava que algumas prostitutas já tinham dito que, quando tomava banho, dava até um homem que prestasse; que tinha uns olhos bonitos. Eram migalhas de elogios bem guardados na memória, que ele evocava sempre. É claro que eram permeados de desprezo e caras de nojo que algumas faziam, quando sua perninha murcha resvalava nelas… Mas agora era diferente, e ela, a Maria Elefanta, era desgraçada como ele.

Não demorou e pegaram namoro. E mesmo entre criaturas tão oprimidas, o namoro segue as mesmas regras: a timidez das primeiras aproximações, os rubores, o coração tinindo no primeiro beijo. A única diferença, nesse caso, foi a velocidade, já que a indigência tinha roubado tanto tempo com dor, que eles se viam ansiosos demais para longos preâmbulos. E entregaram-se ao amor natural, atrás de caixas de papelão, em um beco, protegidos pela noite, com muito mais desejo e prazer que muito casal em lençóis de seda e pétalas de rosa. Ali nem se preocupavam se havia pernas secas, pernas gordas, pernas tortas, pernas…

E tão carinhoso se tornou Perna Seca que logo transferiu sua caneca de esmolas para o lado da amiga. Todo mundo da rua, os transeuntes, os trabalhadores, os malandros, os taxistas, os office-boys e todos mais acharam graça nos mendigos namorados. E, enquanto eram motivo de chacota para a maioria, outros, movidos por pura inveja, ainda se ocuparam em reprovar o casal… Onde já se viu? Tempo e disposição pra safadezas tinham, pra arrumar a vida, nada? “Eu que não dou mais dinheiro pra esses dois, eles que vivam de amor!” pensava-se e sussurrava-se. Raras almas sensíveis percebiam a beleza daquele amor de enjeitados… E, não demorou muito, o negócio das esmolas emagreceu… Perna Seca, porém, parecia feliz demais pra perceber. Só queria saber de chamego e ficava horas acarinhando e esfregando a perninha murcha sobre os edemas da perna doente da namorada…

Maria Elefanta, porém, tinha percebido o problema. Quis alertar o amado, mas tinha medo de magoá-lo, de ferir sua alma já tão judiada pela vida. Achou que, com o tempo, seus carinhos esfriariam, entretanto não foi o que aconteceu. Além da esmola minguar, o namorado foi-se tornando mais e mais pegajoso. Sufocava-a com seus carinhos, com sua presença 24 horas, com todo o tipo de atenção e mimo, tudo o que uma mulher como ela, tão acostumada a se virar sozinha, não conseguia suportar… Foi levando o quanto pôde, mas quando a falência dos negócios e a fome já os ameaçava, ela rompeu com o amado. Pediu um tempo, disse que o amava, mas tudo estava indo rápido demais pra ela… Ele argumentou, implorou para que ficasse, fez promessas, ela até consentiu em tentar novamente, mas… de madrugada, partiu.

Perna Seca chorou como um namorado de folhetim, como uma canção de Lupicínio. Foram dias de soluços, lágrimas e alguns arroubos de raiva e palavrões… as pessoas vieram lhe consolar, todo mundo tinha uma história parecida, os transeuntes, os trabalhadores, os malandros, os taxistas, os office-boys, todos. Alguns achavam graça, mas por dentro compartilhavam a dor do pobre mendigo abandonado… “Fui castigado pela natureza, pela sociedade e, agora, pelo amor!” lamentava, todos os dias, o Perna Seca, com sua caneca na mão… e assim continua até hoje.

Há quem diga – pura maledicência! – que a dor de cotovelo tem durado tempo demais… e que o coração partido dá muito mais esmolas que a velha perninha seca…

 

 

 

Cinognato

 

Não o reconheci à primeira vista. Estava mudado. Seu pelo não tinha mais o aspecto selvagem que eu tão bem conhecia, e seus caninos, agora levemente arredondados, não pareciam mais ameaçadores. O mais estranho, porém, era o seu novo hábito de ficar em pé. Foi chegando de mansinho, como quem não quer nada – eu percebi a aproximação, mas estava muito mais interessado em terminar meu sanduíche antes do fim do horário de almoço, sem puxar papo com nenhum estranho. Tentei concentrar a atenção naquelas crianças que arriscavam usar os brinquedos malconservados da praça. Ele esperou um pouco ali perto, parecendo que não queria me interromper, hesitando… até que não se conteve…

_Oi, você não lembra de mim?

_Desculpe…

_Não acredito que você se esqueceu…

_Você deve estar me confundindo, eu não conheço nenhum urso…

_Urso? Eu como ursos no café da manhã!

O tom parecia artificial, como o de um velho ator emulando seu antigo Hamlet, mas era impossível não reconhecer aquele bordão.

_Cinognato?! É você?!

Abandonei o resto do sanduíche e dei um forte abraço no meu velho amigo imaginário, mas era como se fosse um estranho: não havia nem sombra daquele cheiro de musgo e sangue seco que ele exalava, sua pelagem agora era macia, feita de lã cor de laranja e com um perfume fresco de lavanda… Logo estávamos relembramos nossas antigas aventuras, as caçadas intermináveis desbravando o país perdido, nossa jornada ao Centro da Terra, nossa velha nave espacial, a busca pelo Eldorado, o Náutilus… tantas histórias inesquecíveis e perigosas que vivemos…

_Mas o que aconteceu?

_Ora! Você cresceu e me abandonou!

_Quando foi isso?

_O seu primeiro emprego, lembra?

_Sim! Você veio perseguindo o ônibus, correndo entre os carros pra me alcançar…

_E te perdi, nunca mais nos encontramos…

E então fizemos um silêncio: a triste prova de que a maior parte de nós não se reconhecia mais. E logo me veio aquela frase:

_Você está… diferente.

_Você também!

E ele foi tão enfático que me constrangeu… mas era verdade. Da mesma forma que eu estranhava sua mais recente aparência, tão… inofensiva, ele também devia estar reparando minha gravata, meu cabelo alinhado, e este tremor nas mãos e na voz.

Mas ele era muito bom em quebrar o silêncio, começou a me contar seus novos dias, suas novas amizades e aventuras. Fiquei com um pouco de inveja, afinal, a vida dele parecia ser bem mais interessante que a minha. Mas ele logo leu meus pensamentos outra vez (como era bom nisso também!), então me confessou que nenhuma das novas aventuras se comparava àquelas que a gente tinha vivido…

Então uma menininha sardenta chamou seu novo nome:

_Flock!

Ele hesitou.

_Flockinho!

Sorri, sem malícia, e apontei a garotinha com um gesto. Ele correu ao encontro dela, como um cãozinho feliz e, enquanto eu me afastava, nossos olhos se cruzaram, uma última vez, refletindo o brilho implacável do bárbaro e da fera.

 

***

 

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Título: O idílio de Maria Elefanta e Perna Seca

Autor: Jorge de Barros

Contos, formato 14×21, 72 páginas

ISBN: 978-85-53073-00-9

Linha de edição: experimental

Preço: R$ 38,00 (frete gratuito)




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