Marina Coelho

Marina Coelho nasceu em Florianópolis e é formada em filosofia.

As grandes questões ontológicas e a literatura compõe cada detalhe de sua vida. “Cenas” (Fractal, 2019) é seu primeiro livro.

“Tende a bondade de olhar para minha boca; ela vos choca à primeira vista pela aparência de sua estrutura, sem introduzir a serpente em vossas comparações; isso, porque contraio seu tecido até a derradeira redução, para fazer crer que eu possuo um caráter frio. Não ignorais que ele é diametralmente o oposto. Que pena eu não poder olhar, através dessas páginas seráficas, a cara de quem me vê!” C.L

Contato: marinacoelho95@gmail.com


Conheça alguns contos do livro “Cenas”:

 

Narciso

 

narciso, à margem lamacenta de um rio oriental estéril e parado, tenta agarrar-se à linha de terra que separa o rio da planície.

em vão.

dois anciões ribeirinhos observam enquanto Narciso empunha grandes mãozadas de terra e atira o lodo longe, na tentativa de subir o pequeno monte de lama e chegar à terra firme.

apesar de seus esforços, o monte escorregadio o mantém no mesmo lugar.

alguns caranguejos beliscam seus pés e outros saem constantemente da água para ajudar os companheiros caranguejos que se divertem em torturar.

os ribeirinhos, agradecidos pelo dia nublado, e pela pesca do próximo almoço, se retiram do local.

já era tarde avançada quando narciso, de tanto cavar com as mãos, dentes e unhas, consegue extinguir o pequeno monte lamacento. de forma que o pequeno rio teve sua margem apagada.

de trás da margem surgiu um outro rio que sequer narciso sabia da existência. um rio muito maior que veio se juntar ao pequeno.

narciso encontrou-se por fim no meio de um rio de águas lisas e opacas, sem conseguir distinguir no horizonte onde se situaria qualquer outra margem do rio, que, contudo, não parecia ser muito distante, visto que a água batia na altura de sua cintura.

no instante em que olhou para baixo na água, viu que o rio não refletia sua imagem, nem imagem alguma.

tentou caminhar e olhar ao redor da paisagem cinzenta, não houve progresso.

seus pés estavam fixos por uma raiz que agora subia, enroscando em suas pernas, até que, suavemente, chegou ao seu pescoço, apertou o nó e puxou narciso para o fundo do rio.

no fundo permanecia uma única flor. era a flor da qual se origina a raiz.

a raiz pendia narciso de forma invertida no fundo do rio, tal qual um reflexo.

a flor encostou seu núcleo ao ouvido de narciso que, parcialmente sem ar, esperou que a flor lhe dissesse algo. apenas o silêncio.

desesperado, narciso perguntou, finalmente, o que queria a flor. o que queria lhe dizer.

ouviu suas próprias palavras ressoarem, como um eco.

ninguém ouviu, portanto, ninguém responde.

narciso, então, cada vez mais próximo do afogamento, fecha suas pálpebras. sorri à languidez da morte e sente-se agradecido por não poder ter compreendido coisa alguma.

 

***

 

Cassius

 

um palco. silêncio no teatro. um homem move-se devagar. escuro. rostos empalhados na plateia. sérios. o homem em sua magreza sai por detrás da platéia e se esquiva pelos corredores das fileiras. esguio e temeroso, o homem senta no chão e espera.

encena-se júlio césar. os atos desenrolam-se sempre com brutus e os demais da conspiração. mas um detalhe foi perdido.

e aqui toda imperícia de um equívoco se desdobra.

falta cassius. mas a peça se desenvolve de tal forma que sua presença seria completamente irrelevante. júlio césar, um xadrez sanguinolento.

cassius permanece sentado próximo às cadeiras. pálido e perplexo.

— cassius, a tua mão que um dia foi desgraçada hoje não é mais. o azar reverteu o teu passado. tu te tornas uma pecinha quebrada. fadado a vagar pelos bastidores do mundo. sem nunca entrar em cena. cassius, o chão que gela teus pés. cassius, o vinho que empoleira em tua garganta. a mudez que assola tua fala. cassius, a mão que hesita – e se detém. cassius, a vaidade da poeira dos ossos.  assim é a história de como desapareceste.

a peça acaba. a cortina se fecha. num gesto desesperado, cassius se levanta. nenhum olhar lhe é dirigido. sobe ao palco. move seus pés. implora aos deuses. bate no chão oco com as palmas das mãos abertas, nenhum ruído. o grito que não saiu. leva as mãos à cabeça. seus cabelos caem. ele um dia morrerá sem ter conhecido uma gota de seu sangue de traidor. a nobreza em deitar como um covarde. o arredio cassius. aquele que não pôde estar perto. o doente cassius.

faz um último esforço na tentativa de alcançar a platéia distante com as mãos. seu corpo arqueja, sem êxito. se dobra. um braço se estende como o de cristo. outro permanece em seu colo. o gesto incompleto. o pescoço pendido. espera alguns poucos minutos. abre os olhos. nenhum aplauso. deve ser normal que não o aplaudam. resignado. se levanta. se retira. senta. os últimos espectadores vão embora. cassius espera outra vez que a peça seja encenada novamente. e assim eternamente.

 

***

 

metamorfoses

 

agora eu sou um monstro marinho. agora eu sou um ânus. agora uma planta. agora eu sou uma pedra. agora eu sou o risco de cair e morrer. agora eu sou um pedaço de pau. um falo. agora uma costela de boi. agora um bicho primitivo, esquálido. extinto antes de tudo.

 

***


Título: Cenas

Autora: Marina Coelho

Contos, formato 14×21, 124 páginas

ISBN: 978-85-53073-09-2

Preço: R$ 40,00 (frete gratuito)




 

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