Paulo Ribeiro Neto

Paulo Ribeiro Neto nasceu na cidade de São Bernardo do Campo (SP) em maio de 1994. Graduou-se em Relações Internacionais (UNESP) e é mestrando em Integração da América Latina (PROLAM – USP). Foi, por seis anos, membro de uma companhia teatral amadora, chegando a participar na elaboração de dramaturgias originais para a mesma. Sempre gostou de escrever, tendo participado de oficinas literárias na Câmara de Cultura de São Bernardo do Campo, na Casa das Rosas, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Centro de Pesquisa e Formação do SESC, entre outras instituições. “Maria são nossos nomes” é o seu primeiro livro.

Contato: paulohrneto@hotmail.com

 


Conheça um dos contos do livro “Maria são nossos nomes”:

 

Maria, a louca

 

“Eu já não tenho mais voz

Porque já falei tudo o que tinha que falar

Falo, falo, falo, falo o tempo todo

E é como se eu não tivesse falado nada”

Stela do Patrocínio

 

Primeira tentativa. Soou o telefone na casa de José, que estava deitado no sofá vendo um filme com sua mulher. Foi Rita, sua única filha, quem atendeu:

— Alô. Oi, vó! Tudo bem com a senhora?

Ela olhou para o pai que, em silêncio, apontou para si mesmo. A filha assentiu com a cabeça.

— Meu pai? — ele começou a fazer o sinal negativo com o dedo indicador, sob o olhar de reprovação da esposa. — Ele está trabalhando agora, vó. Não, não sei a hora que ele volta… Mas eu aviso que você ligou. Tá, eu aviso que é importante. Fica com Ele também. Beijo.

Terminou a ligação. Maria precisava buscar o número de Lázaro na agenda, só que antes teria que achar um canto iluminado em seu quarto. Não era tão tarde, mas já estava escuro e ninguém vinha arrumar a iluminação da sua casa. Sempre assim: prometiam, prometiam, mas nunca vinham. Ao menos, não para isso.

Segunda tentativa. Do outro lado, vibrou o celular na bandeja do fast-food. Lázaro viu o nome na tela e franziu a testa. Ele optou por ignorar e continuou a abocanhar um hambúrguer “especial para você”, sem picles.

— Você não vai atender? — perguntou sua namorada, que já havia terminado. — Você sempre atende as chamadas da firma.

— Não é a firma, é a minha mãe — respondeu de boca cheia.

— Agora tá explicado… Mas que saco, isso! Ela não tem o número dos seus irmãos?! Parece que só liga pra você.

— É foda, ninguém faz nada. Recusa a chamada pra mim, amor? Meu dedo tá todo engordurado, vou sujar a tela do celular.

Maria começou a falar quando finalmente escutou a voz do filho, demorou uns segundos até perceber que era a caixa de mensagens.

Terceira tentativa. O telefone de Diogo ela sabia de cor, era o mesmo há muitos anos. Quem atendeu dessa vez foi seu netinho. Ao reconhecer a voz enferrujada de Maria, ele se assustou e não falou mais nenhuma palavra a ela. Saiu correndo, com o telefone em uma mão e o brinquedo na outra, até a sua mãe.

— A vó! — disse estendendo o telefone para ela.

— Qual vó? — perguntou a mulher, enquanto secava a mão. Ela estava lavando os pratos do jantar.

— A louca.

Ela agachou para falar com o filho e tampou o microfone do aparelho com a mão.

— O que eu te ensinei, Tiago? Quando a mãe maluca do seu pai ligar é pra clicar no botão vermelho, entendeu? Clica no botão vermelho.

Caiu a ligação. Maria desistiu e adormeceu. Foi desperta pelo toque do telefone, duas horas depois.

— Alô — ainda com voz de sono.

— Mãe? Acordei você?

— Não, José. Onde você estava, filho?

— Trabalhando — respondeu.

— Você só trabalha. Não tem mais tempo pra mim.

— Mãe, para de besteira. Você me ligou?

— Liguei. A Rita passou o recado? — indagou a senhora.

— Passou. O que você queria?

— Era urgente, José.

— O que era urgente, mãe?

— Agora eles estão dormindo, mas eu vi o que ele fez com elas — afirmou Maria, olhando pela janela do quarto.

— Do que é que você tá falando dessa vez?

— Dos vizinhos, filho. Eu acho que o homem que mora ali anda mexendo com as meninas.

— Mãe, você está tomando os seus remédios?

Eles falavam ao mesmo tempo, como se estivessem em um monólogo. Nenhum parecia estar preocupado em escutar a versão do outro.

— Ele espera a mulher dormir e vai até o quarto delas.

— Você tem que tomar os comprimidos, assim não dá!

— A minha janela é bem de frente ao quarto das meninas.

— Se você não toma os remédios, as vozes vão continuar falando na sua cabeça.

— Hoje, eu vi ele entrar e abusar da mais velha. Ninguém me contou, eu vi. Ele entra e mexe com ela. Não pode deixar isso acontecer, filho.

— Mãe, você tá aí? Desse jeito parece que eu tô falando sozinho.

— Eu suspeitei da cara dele desde o início, é um homem muito estranho. O olho arregalado, o bafo de bebida.

— Mãe, você está me ouvindo?

— Eu ouço tudo que acontece ali, essas casas são muito apertadas e o meu muro é quase colado com o deles. Às vezes, eu acho que ele sabe que eu sei.

— Mãe? Porra, eu vou desligar se você não parar — afirmou em um tom mais alto, levemente alterado. Maria finalmente o escutou.

— Eu não gosto de ouvir você falando palavrão, José.

— Caralho, eu preciso gritar pra que a senhora me ouça.

— Deus não gosta de palavrão.

— Você tá tomando os comprimidos?

— Esse remédio me deixa tonta, sonolenta — explicou ela. — Ele me faz mal, me faz ficar na cama, depressiva.

— É isso então, mãe. Quando você não toma o remédio, você começa a delirar. A médica não te explicou isso um milhão de vezes?

— Vocês querem me matar, fala a verdade. Você e seus irmãos.

— A gente só quer o seu bem, mãe.

— Você não é meu filho. Meu filho nunca faria isso comigo. Você é um clone dele, você quer me matar.

— Mãe, eu sou seu filho. Você precisa tomar o remédio senão o Diogo não vai deixar você ir à festa do Tiago no domingo. A senhora não quer participar da festa do seu neto?

— O Diogo nunca faria isso comigo. O Diogo é meu filho, você não é.

— Engraçado isso. O seu filho respondeu a sua ligação urgente?

— Quem?

— O Diogo. Ele ligou pra você?

— Ele não deve poder ligar agora.

— Então eu, que sou clone, sou mais filho que ele.

Eles ficaram em silêncio por alguns segundos.

— A maligna vai estar na festa do Tiago?

— Eu já falei que você não pode chamar a tia Helena de maligna.

— Mas é isso que ela é. Maligna, feiticeira.

— Ela vai na festa e você vai ser educada com ela.

— Ela enfeitiçou minha mãe, fez ela me largar no interior com a vó quando eles mudaram pra cá. Ela desgraçou a minha vida. Não satisfeita, enfeitiçou vocês também.

— Ela é sua irmã, mãe.

— A Cida é a minha irmã.

— A tia Cida morreu há mais de dez anos. A tia Helena é a sua única irmã viva. Por que é que você não pode se dar bem com ela? Ela gosta tanto de você.

— Eu não quero mais falar dela — retrucou irritada. — Vou voltar a dormir. É tão difícil dormir com esse calor e você me acordou.

— Você disse que eu não tinha acordado a senhora.

— Eu menti! — exclamou, áspera.

— Tudo bem então. Vai dormir.

Ela desligou o telefone sem dizer adeus. José ficou indignado. Voltou-se para a esposa, que estava ao seu lado:

— Desligou na minha cara, acredita? Na minha cara! Por isso que eu não gosto de ligar pra ela. Por que você tem que ficar insistindo? Isso é pra eu aprender.

 

*****

 

Na noite seguinte, Maria assistia a um programa na televisão de seu quarto quando viu o vizinho novamente pela janela. Ela o observou atravessar o corredor com um lampião e seguir para o quarto das meninas. Não conseguia acreditar que ele faria aquilo de novo com elas… Era mesmo um ser sem compaixão por ninguém.

Quando se dirigia à cama da menina mais velha, ele pareceu notar que a senhora o observava. O vizinho então olhou bem fundo em seus olhos com um semblante que a aterrorizou. Ainda a encarando, ele levou o dedo indicador à boca e ao nariz, emitindo um som pelo espaço entre seus dentes sujos e amarelados:

— Shhh!

Em seguida, o homem fechou a cortina da janela do quarto das meninas. Maria correu para o telefone, mas lembrou que já havia tentado alertar os seus filhos na noite anterior e que eles não tinham feito nada. “Se não eles, quem?”, pensou a senhora. Desesperada para ajudar as crianças da casa ao lado, ela resolveu então discar para a polícia.

A voz que a atendeu foi prestativa no início, mas depois de uns minutos mudou o tom no telefone. “Deve ser coisa da minha cabeça”, pensou Maria, “a polícia não vai negar socorro”. A chamada terminou com o aviso de que alguém iria até a sua casa e que ela não deveria sair de lá até que esse alguém chegasse.

De fato, vinte minutos depois, tocaram a sua campainha. No entanto, ao invés de um policial, era seu filho, Diogo, quem estava na porta.

— Você trabalha pra polícia agora, Diogo?

— Claro que não, mãe — respondeu o filho, enfurecido. — O delegado me disse que a senhora ligou na central outra vez. Eu não disse que você estava proibida de envolver a polícia nos seus delírios?!

— Mas dessa vez eu não estava delirando, eu juro.

— O que foi dessa vez? — Diogo entrou abruptamente na casa da mãe, que o seguiu. — Não vai me dizer que o presidente dos Estados Unidos tentou roubar o seu dinheiro de novo!

— Não, não é o Trump dessa vez. É o vizinho, filho. Ele mexe com as filhas dele, eu vejo tudo da minha janela.

— Mãe, desse jeito você pode colocar um homem inocente na cadeia.

— Não é loucura minha, eu vi.

— Você acha que viu, mãe. É tudo invenção da sua mente. Você está tomando os remédios que a médica receitou?

— Você quer me matar também? Ontem foi o José, agora é você.

— Mãe, onde você guardou os comprimidos? — Diogo indagou enquanto vasculhava as gavetas da cozinha.

— Eu joguei fora — ela confessou.

— Quer saber, eu cansei de você. Sabe, é sábado à noite! Eu saí da minha casa, deixei a minha mulher e o meu filho lá, sozinhos, pra vir até aqui… E a senhora não quer colaborar, nunca colabora.

Diogo se dirigiu até o telefone fixo, o único da casa, e desconectou os fios que ligavam o aparelho à eletricidade.

— O que você tá fazendo, Diogo?!

— Eu vou levar isso embora. A senhora perdeu o direito de ter telefone em casa. Também perdeu o direito de ir à festa do Tiago amanhã. Se você não quer se medicar, não vai poder ir.

— Você não pode fazer isso comigo! — gritou a senhora, vermelha de raiva. — Eu sou a sua mãe, eu gerei você no meu ventre. Você me deve respeito!

— Você não é mais minha mãe — retrucou tão irado quanto ela. — Você age feito uma criança descontrolada. Se você não toma seus remédios e escolhe ficar assim, eu vou te tratar como a criança que você se tornou.

Ele começou a se dirigir até a porta, com o telefone embaixo do braço, e ela correu para tentar impedir que ele saísse.

— Por favor, filho — implorou, com os olhos marejados. — Eu quase não saio mais de casa. Como vou falar com as minhas amigas sem o telefone?

Perturbado, ele a encarou uma última vez:

— Você não tem mais amigas, mãe. A doença afastou as poucas amizades que ainda lhe restavam. Você acha que tá falando com elas, mas tá falando sozinha. Não precisa de um telefone pra isso.

Ele foi embora e a deixou sozinha. Ambos choraram minutos após a discussão: ela deitada em sua cama, ele dirigindo seu carro.

 

*****

 

Os três irmãos se sentaram na mesma mesa do salão de festas onde acontecia o aniversário de Tiago. Eles raramente se viam pessoalmente, essa era uma das raras oportunidades de colocar a conversa em dia. No entanto, a despeito do desconforto gerado pelo tópico, o quadro mental de Maria inevitavelmente surgia quando se encontravam:

— Eu fui ontem ver a mãe.

— Eu falei com ela por telefone na sexta.

— Ela tentou me ligar também, mas eu estava em reunião — mentiu Lázaro.

— Ela tá mal.

— Muito mal.

— É foda.

— A gente precisa fazer alguma coisa.

— O quê?

— Sei lá.

— Eu também não sei, mas do jeito que está não dá mais. Já pensaram em mandar ela pra alguma clínica de novo?

— Qual, José? A que fica em São Carlos? — questionou Diogo.

— Não, aquela é muito cara. Tem que ser uma mais barata.

— É e eu tô sem grana também.

— Você nunca tem grana, Lázaro.

— Porra, vai jogar na cara, Diogo? Que merda, viu.

— É uma merda, mas tem que gerenciar. É nossa mãe.

— Mas, sejamos sinceros, se ela já estivesse… Ah, deixa pra lá.

— Se ela estivesse o quê, Diogo?

— É, completa a frase.

— Vocês sabem… Vai dizer que nunca pensaram nisso também?

— Ah, vai se foder!

— Cala a boca.

— Fala baixo, isso aqui é aniversário de criança.

— Aniversário de criança o caralho. Você falando na possibilidade…

— Falsos moralistas, vocês dois. Hipócritas!

— Hipócrita é você. Finge que quer cuidar dela, paga de bom filho e fica desejando essas coisas. Era essa a sua sugestão?

— Claro que não, Lázaro. Falei por falar.

— A verdade, eu repito, é que do jeito que a coisa está não dá mais pra ficar. A gente tem que ir lá mais vezes, visitar ela. Pelo menos isso.

— Eu sempre vou lá, José.

— Quando foi a última vez?

— Que eu fui lá?

— É, Lázaro. Quando foi?

— Eu sei lá… Semana passada.

— Mentira.

— Por que é que eu mentiria, Diogo?

— Você sabe que é mentira. Foi a mãe mesma quem me falou que você não vai lá há mais de um mês.

— Eu trabalho de segunda a sábado, vocês esqueceram?

— Todo mundo aqui trabalha.

— A gente ainda tem filhos. Você nem casado é.

— Isso não significa nada, eu tenho os meus cachorros.

— Cachorro é igual filho agora, Lázaro?

— Claro que é.

— Vai se foder!

— Vai você.

— Quer saber, vão à merda. Vocês dois, à merda.

A discussão só terminou quando o celular de José começou a tocar. O nome de Duarte apareceu em sua tela.

— Você pagou o aluguel desse mês, Diogo? — perguntou José. Duarte era o proprietário do imóvel alugado em que Maria morava.

— Claro que sim. Por quê?

— É o Duarte. Você pagou ou deu o dinheiro pra mãe?

— Eu paguei. Atende logo e vê o que ele quer.

Duarte informou por telefone o ocorrido. José ficou transtornado ao ter conhecimento dos fatos e informou prontamente seus dois irmãos. Eles decidiram que – em caráter de urgência – teriam que ir os três até lá e resolver o mais novo problema causado por Maria.

— É melhor se apressar — disse o Duarte ao telefone.  — A vizinhança está assustada com o barulho, pode ser que chamem a polícia.

José correu para pegar a chave do carro na bolsa da esposa e esbarrou em sua tia, Helena, que havia percebido a movimentação incomum.

— É a sua mãe, José?

— E o que mais poderia ser tia?! Faz três dias que ela está delirando, falando que o vizinho abusa das filhas dele. Não sei de onde ela tira essas ideias!

Helena ficou pensativa por alguns segundos e saiu atrás de seus sobrinhos. Ela os alcançou a tempo de encontrá-los ainda na rua, entrando no carro.

— Eu vou com vocês.

— Você esqueceu que ela chama você de maligna e feiticeira? — disse Lázaro. — Ela não quer te ver nem pintada de ouro.

— Eu vou. Não me importo com os xingamentos.

— Só se você ficar no carro — exigiu Diogo. — Sabe como é, ela pode estar fora de si.

A tia concordou e os quatro partiram rumo à casa de Maria.

 

*****

 

Maria estava atacando a casa vizinha com uma pá, quebrando as janelas e gritando palavras de ordem, quando seus filhos chegaram ao local.

— Mãe, larga isso! — exclamou Diogo

— Sai daí! Eu sei que você está aí, você vai pra cadeia! — ela gritava para a casa, que continuava às escuras. — Solta as meninas! Eu sei o que você faz com elas!

— Para de surtar, você está acordando os vizinhos! — disse José

— Eu não estou surtada. Eu vejo ele mexendo com elas. Toda noite ele vai até o quarto das meninas depois que a mulher dorme.

— Ele quem, mãe? Essa casa tá abandonada desde que você mudou pra cá. Ninguém mora aí! — afirmou Lázaro, tentando se aproximar.

— Não encosta a mão em mim. Já sei! Vocês fizeram um pacto com ele pra acobertarem tudo, não é? Diz a verdade!

— Vai ter que chamar a ambulância, não tem jeito – disse José, desistindo.

— Não precisa, acho que a gente consegue segurar.

— Melhor não, pode ser que a gente acabe machucando ela se tentarmos conter fisicamente — observou Diogo.

— Sai de perto de mim! — gritou a idosa, ameaçando seus filhos com a pá.

— Larga isso, Maria — disse Helena, chegando ao local.

— Vocês trouxeram a maligna aqui? Como vocês tiveram coragem?

— Nós tínhamos combinado que você ia ficar no carro, tia.

— Volta pra lá, ela pode machucar você — disse Lázaro.

— Eu não tenho medo da minha irmã — respondeu ela. — Maria, a gente precisa conversar.

— Ela é maluca, não vai te ouvir, tia.

— Eu não sou maluca! Não sou!

—  Eu vou explicar tudo pra você, Maria — disse Helena calmamente. — Vamos para a sua casa e eu prometo que você vai entender.

Maria baixou a pá e olhou firmemente para Helena.

— Tudo bem, mas, se você tentar qualquer gracinha comigo, sua bruxa… Ai de você! Vai se arrepender de ter vindo até mim.

— Eu não vou tentar nada. Prometo!

— Promete pela mamãe?

— Prometo.

— Então vamos.

Helena e Maria se dirigiram até a sua casa. Os filhos tentaram segui-las, mas Helena os alertou:

— Vocês ficam aqui. Essa conversa é minha, dela e de mais ninguém.

Mesmo contrariados, os três ficaram em pé na calçada enquanto mãe e tia se trancavam do lado de dentro.

 

*****

 

— Se você veio me chamar de louca é melhor desistir – disse Maria, assim que passou a chave no trinco. — Eu sei que eu me iludo às vezes, mas dessa vez não… Eu sei o que eu vi.

— Todo mundo é um pouco louco, Maria. Só que os meninos falaram a verdade pra você, ninguém mora naquela casa. Ela está abandonada.

— É mentira! Eu vi aquele homem entrando no quarto delas.

— Eu sei. Tem noites em que eu também lembro. Eu também vi o que ele fez com a Cida, ela sofreu muito na mão dele.

Lentamente, as lembranças começaram a ficar mais nítidas na mente de Maria. Era como se um véu estivesse sendo descortinado naquele momento.

— Ele tentou com você? — indagou à Helena.

— Não, eu era muito pequena. E com você?

— Não, eu estava longe de vocês. Você fez a mamãe me largar com a vó, a centenas de quilômetros daqui!

— Você sabe que eu não fiz isso, eu era só uma criança.

— Eu também era uma criança.

— Ela quis proteger você, Maria. A mamãe só não me deixou com a vó também porque eu ainda era muito pequena, você sabe disso.

As duas ficaram em silêncio por alguns minutos. Helena tirou um cigarro da bolsa e acendeu.

— Quer? — perguntou à sua irmã

— Você voltou a fumar?

— Eu nunca parei de verdade. Quer ou não quer?

Maria deu de ombros. Helena tirou outro cigarro da bolsa, colocou na boca de sua irmã e o acendeu. As duas passaram a fumar naquela sala velha e fracamente iluminada.

— Lembra o que a mamãe disse quando o Lázaro nasceu?

— Não — respondeu Maria.

— Ela disse que tem certas coisas que não são ditas em voz alta, especialmente para as crianças. Certos demônios que enterramos bem fundo dentro da gente e oramos pra que eles nunca mais voltem — disse Helena, enquanto Maria baforava a fumaça. — A Cida, que foi quem sofreu mais na mão dele, levou tudo com ela pro túmulo. Se ela conseguiu, a gente consegue também.

— Eu tento, Helena, mas ele volta à noite pra me atormentar.

— É essa sua doença maldita… Quando ele voltar, você tem que lembrar que acabou, entendeu? Acabou. Se há justiça nesse universo, ele já está muito longe de todas nós agora.

— Acabou — repetiu Maria, para si mesma.

— Acabou — reforçou Helena. — Agora, vai no seu quarto colocar uma roupa minimamente apresentável.

— Por quê?

— Porque a vida continua, irmã. A vida sempre continua. A mamãe também ensinou isso para a gente. Além disso, nós temos que chegar na festa a tempo de cantar parabéns pro seu neto.

Extasiada com a possibilidade de ver seu netinho, Maria jogou fora o cigarro e foi para o quarto se arrumar, enquanto Helena continuou fumando na sala. Antes de se trocar, ela voltou correndo até o sofá e deu um beijo na testa de sua irmã caçula. Elas não precisaram trocar mais nenhuma palavra naquela noite.

 

*****

 

— Por que não pode ser sempre assim? — perguntou Diogo aos seus irmãos enquanto observava a mãe brincando com seu filho.

É claro que Tiago enfrentou alguma resistência em interagir com a avó que nunca via, e que sempre foi retratada como uma figura anormal, mas bastaram alguns minutos de contato, e um pouco de esforço por parte de Maria, para que estivessem se divertindo lado a lado.

— Vocês acham que tem cura? — questionou Lázaro.

— Nós sabemos que não tem — disse José.

— Cura pra quem? — interviu Helena. — Para ela ou para a gente?

— Como assim pra gente?

— Eu não sei quem é mais doente: o que delira ou os que isolam o mais fraco.

— Não seja injusta, tia! Nós nunca paramos de tentar… Só que a situação é muito difícil — lembrou José.

— Ela não muda — afirmou Diogo. — Por mais que a gente insista.

— Não sei… Às vezes, eu acho que não é ela quem tem que mudar.

Lázaro também ia tentar argumentar, mas não deu tempo. As luzes se apagaram e as velas do bolo foram acesas. No escuro, Maria só conseguia focar no sorriso de seu neto enquanto todos cantavam parabéns. Emocionada, ela deixou que uma ou duas lágrimas escorressem de seus olhos. Ela tinha esquecido que era possível ser tão feliz nesse mundo.


 

Título: Maria são nossos nomes

Autor: Paulo Ribeiro Neto

Contos, formato 16×23, 164 páginas

ISBN: 978-85-53073-03-0

Preço: R$ 40,00 (frete gratuito)




Este post tem um comentário

  1. Se todos lerem seu livro,vão adorar,eu aqui do outro lado do continente,acabei de ler e mexeu muito comigo,as lembranças de infância ,aqui más, deixaram marcas profundas.Parabéns

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