Rafael João

 

Rafael João, 26 anos, baiano que foi criado na terra da garoa, psicólogo, finge que sabe escrever pra suportar a dor de existir em excesso, nasceu com uma bomba-relógio no lugar do coração e tem medo que alguém descubra. Escreve como se estivesse num ritual de exorcismo sem cruz, sem velas ou água benta. Autor de “Pelicano”

Contato: rsjoao7@gmail.com

 

 


Conheça alguns poemas do livro “Pelicano”:

 

deu-me além da prece

quase findou a sede tatuada

amarga e seca sobre meus lábios

amnésicos não sabem mais do gosto

outrora deixado esquecido velado aqui

onde mão nenhuma consegue alcançar

 

alcanço palavras no vão que separa

a minha espera da tua ausência

nostálgico e descuidado tropeço

e caio despencando a-

morte-

cido pelo ventre infértil

da saudade

 

entro por onde deveria sair

caio no céu e ascendo

ao inferno do silêncio

onde palavras se queimam

se consomem se derretem todas

como velas acesas por medo

do escuro e da prece que ninguém

escuta e das letras rabiscadas

ilegíveis: pedimos

para sermos salvos

 

a pele marcada

dedos descansando na superfície

o toque não afunda e eu não sobre-

vivo onde não há mais sede

 

(cedo ao vazio)

 

fúria costurada entre meus dedos

quantos ossos terei que quebrar

até alcançar

tua alma?

 

***

 

búfalo

 

ele me olha com olhos
de superfície que teme
a minha ânsia profunda
de querê-lo até a última gota
ele tem medo de que eu
na minha imensa delicadeza
de um búfalo engula
sua alma e nunca mais
a devolva ao seu corpo
marcado por mãos que
só conhecem o raso

 

ele me quer com
a mesma intensidade
que me teme

 

***

 

manchada dos pés ao teto
do meu quarto bagunçado
língua incapaz de lamber o gozo
copos cansados de cortar meus pés
dentes que apodrecem num jejum in-
terminável o batom borrando
a boca ressecada
o último cobre os olhos pra não ver
o estrago

 

***

 

prólogo

 

com essas mãos enormes

tentas proteger

– em vão –

teus olhos

para que eu não trepe

com tua alma

 

t r a n s a

 

desarmadas todas as bombas
os escudos estão ao chão
minha pele se descolou da minha carne
você ainda é?
um livro achado debaixo da cama
histórias queimadas para ninguém ler
nossas memórias assombram
os fantasmas na casa abandonada
nosso amor ainda não morreu
mas eu estou imersa numa angústia in-
suportável o vai-e-vem das vinte e quatro
mãos tentando encontrar o ponto g
me afundo lentamente em meu próprio gozo
a ponta dos teus dedos encosta mas não
encontra a minha alma
nunca estive tão frígida e vazia
“I need you so much closer”
fique mais perto
deixa-me penetrar
tua solidão
sem lubrificante

 

epílogo

 

será que nunca saberei

foder

só com o corpo?

 

***

 

menina,

 

acende uma vela
mas reza baixinho
pra deus não escutar
tens medo de ser atendida
e receber tudo que pedes
entre as contas escuras
pendendo dos dedos
frágeis e ásperos
contando os últimos cigarros
“ainda dá tempo de fumar
mais um?” você me pergunta
tragando no pequeno espaço
enquanto queimas
as próprias coxas
por descuido ou deleite na dor
não sei você não sabe nunca
saberemos das cartas amassadas
outras rasgadas e amontoadas
embaixo da nossa cama
pedidos jamais lidos
assombrando
nossas noites insones
onde a solidão nua
e crua
não pode mais
se livrar

 

***

 

você sabe que eu não acredito em destino
mas o sino da igreja soou às 6 da tarde
nem sabemos mais rezar
depois do terceiro dia seu corpo não fede
mais um dia dentro de mim
não podemos apodrecer esperando
cair de tão maduros
o amor é um fruto proibido
mas nossos dentes não dão conta de morder
crianças e seus dentes de leite
amolecidos sob o olhar da mãe
você tem medo de (me) arrancar pela raiz?
afundamos nossa fome e quebramos
todos os dentes até descobrir que depois
de comer
a fome continua
viva

 


Título: Pelicano

Autor: Rafael João

Poemas, formato 14×21, 176 páginas

ISBN: 978-85-53073-01-6

Preço: R$ 40,00 (frete gratuito)




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